Para uma arquitetura do futuro

 

Industrialização e a sustentabilidade podem caminhar juntas, desde que as práticas desenvolvidas busquem sempre minimizar os impactos ao meio ambiente sem perder produtividade.

 

Mario Fundarò*

A arquitetura do futuro será, com certeza, uma arquitetura que gastará menos: menos energia elétrica, menos água e menos recursos para a gestão dos resíduos e do impacto ambiental negativo.

Para que isso aconteça, é necessário que seja reconhecida a importância da etapa projetual, que o processo da construção civil seja sempre mais industrializado, e que, enfim, as energias renováveis e os sistemas passivos de gestão do clima interno de uma casa ou edifício se imponham como prática corrente e não mais como “simples experimentação universitária”.

O pré-fabricado

O Brasil ainda não desenvolveu práticas corretas de industrialização da construção civil, apesar de existirem exemplos esparsos sendo aplicados nos últimos dez anos. O nome “Construção Industrializada” vem da pré-fabricação, de componentes da obra dividida em módulos. As etapas, executadas em outro local, são transferidas para o canteiro de obras. Com isso, o produto final adquire uma qualidade superior ao método tradicional. Ao termo pré-fabricado se adere o Modular. Nesse sentido, todos os itens da obra devem “conversar entre si”, acarretando um índice menor de perdas e resíduos.

A industrialização dos processos construtivos melhora a questão da sustentabilidade, pois a geração de resíduos é menor, centralizando os processos, que, por isso, tornam-se mais racionalizados, gerando um menor volume de resíduos e consumindo, consequentemente, menor quantidade de energia. (VERONA, MASERA & CORRÊA, 2007).

 

Energia Zero

Por fim, chegamos ao ponto chave da arquitetura do futuro, que aplicará e integrará, de forma intensiva, as energias renováveis (em particular solar, geotérmico e biomassa) no próprio projeto, juntando-o ao conceito de microgeração energética. O cidadão, além de ser Consumidor, assumirá o papel fundamental de Produtor de energia. A microgeração a partir de energias renováveis ainda é uma realidade pouco explorada no Brasil, apesar de ser um dos países do mundo com maior potencial solar e rico em silício (mas até hoje não produz células fotovoltaicas).

No Brasil, até abril de 2012, não era permitida a comercialização de energia abaixo de 3 kW. Isso é, o investimento de um painel fotovoltaico em uma residência era antieconômico, pois o cidadão estava produzindo energia nas horas que menos precisava. Na verdade, ele estava doando energia. Finalmente, a ANEEL, por meio da Regulamentação 482/12, regularizou o mercado abaixo de 3 kW, permitindo sua comercialização, ou seja, abriu-se uma possibilidade de vender (por parte do consumidor) e obrigação de comprar (por parte das distribuidoras). Esse movimento caracterizará uma pequena revolução nas Energias Renováveis porque, hoje, um investimento em energia fotovoltaica terá retorno financeiro consolidado somente em seis ou sete anos.

Assim, a residência de cada brasileiro poderá ser uma espécie de “protagonista” do aumento da segurança energética, da proteção ao meio ambiente,  da diminuição de poluição, dos GEE (Gases do Efeito Estufa) e emissões de CO2 do próprio País.

Essa arquitetura do futuro, além de produzir energia, terá o diferencial de não gastar energia. Entramos no mundo dos sistemas passivos de gestão do conforto interno de uma moradia. As edificações com sistemas passivos, também conhecidos como sistemas climáticos, tiram proveito dos seus elementos estruturais de maneira a permitir o seu aquecimento/arrefecimento, assim como gerir a iluminação natural ou sombreamento de um espaço, sem precisarem de equipamentos mecânicos ou elétricos. Têm, por isso, uma ponderada consideração de fatores, como o clima local, as características do terreno, o entorno, os materiais utilizados e a orientação do próprio edifício.

Entre as técnicas utilizadas, são conhecidas o muro “trombe”, a parede ventilada, o telhado ventilado, os sistemas geotérmicos de aquecimento ou arrefecimento, a ventilação cruzada, as paredes e pavimentos acumuladores, armazenamento natural de energia térmica, as estufas, o brise soleil, a chaminé solar,  as torres de vento ou captadores de vento, a ventilação induzida pelo calor, o telhado verde e resfriamento por evaporação, dentre outros.

Tudo isso deve ser projetado e planificado por profissionais, apesar de que, ainda hoje, poucos arquitetos estão preparados para projetos de sistemas passivos. Um bom projeto transforma um “edifício passivo” ** (que atua passivamente, no que respeita o seu entorno) em “edifício ativo” que atua como protagonista para gerar conforto ao próprio inquilino, com baixo gasto energético, sustentabilidade e respeito pela natureza.

Para finalizar, saiba que os sistemas passivos utilizam técnicas que têm origem em antigas civilizações, como a Pérsia, o Egito, Índia, Síria, China, Império Mongol e, também, das civilizações indígenas das Américas.

Além do aprendizado com o passado as plantas arquitetônicas terão corredores, portas , banheiros mais largos e acessíveis devido ao envelhecimento da população buscando casas mais adaptáveis a população idosa o que não deixa de ser uma volta as casas  do passado que tinham essas características. Materiais mais naturais serão empregados como revestimentos, sendo o caso de tijolos de barro, madeiras e tintas naturais. O uso do material sintético o qual fez impulsionou a indústria nos últimos tempos se mostrou prejudicial a saúde, dando lugar a tecidos e revestimentos que além de sustentáveis não prejudicam a saúde.

A automação será uma característica bem marcante nos novos projetos, levando em conta  a autossuficiência dos sistemas energéticos e de captação e reaproveitamento de água.

A arquitetura do futuro vai ter que aprender ainda muito com o passado…

 

Fonte : Mario Fundarò / Instituto Brasil

Projeto da foto por Mahalo Arquitetura

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